Profissão: Repórter (não… não se trata daquele quadro do Fantástico, com recém-jornalistas maquiadas e cabelos esticados. Sou repórter, aquela de redação, vulgo, assalariada... vou mais longe: fudida!)
Estado Civil: a esperança é a última que morre
Nos dias como hoje penso nas sábias palavras do meu pai: “jornalismo não é profissão, você tem que fazer Direito”. Mas resolvi fazer “esquerdo”, né? Que remédio?!
Tudo começou aos 14 anos, quando achei que a afinidade com a escrita faria de mim uma daquelas jornalistas de destaque, aquele tipinho que vemos nos filmes, entranhadas em matérias investigativas, nas quais se tem de fato o compromisso com a verdade. Isso, aquele juramento que se faz quando o suado canudo está, finalmente, em suas mãos. Adolescente imbecil que me levou por esse caminho! O tal “compromisso com a verdade” só se faz efetivo nas telas de cinema e nos best sellers ingleses.
Rio de Janeiro, 10 de maio, 7h30 da manhã, segunda-feira. Aquele maldito pato já está tocando a sua corneta infernal!! O que?? Se eu crio patos na metrópole mais violenta (nas páginas dos jornais, porque a realidade é outra) do país? Não... ainda não cheguei a esse grau de insanidade. O pato desgraçado que toca uma ensurdecedora corneta às 7h30 da manhã é um despertador mesmo. Ainda calo a corneta desse bicho!! Pulo da cama como se fosse para a guerra, calço as minhas pantufas rosa, com cara de porcos – com a cara tão sujinha como tal - abro a janela do quarto e me deparo com uma garoa quase paulista. Que maneira poética de começar o dia!! Procuro o Cristo da minha janela, acho que ele ainda está debaixo dos cobertores brancos quentinhos... o Cristo sumiu!!! E quase penso em fechar a janela e voltar para os meus, mas imediatamente lembro da cara daquele editor ranzinza controlando meus horários e deixo a idéia brilhante para o próximo domingo.
O melhor a fazer é tomar um bom banho quentinho para substituir aquela cara amarrotada por uma, no mínimo, apresentável. Saio do banheiro, pego o celular, sete ligações perdidas do Sr. Ranzinza. Eu mereço! Não vou ligar agora... está frio, tenho que me vestir. Não, nada daqueles terninhos interessantes, batonzinho, imagina... é um jeans surrado mesmo, com uma Hering básica para não chocar as mocréias descabeladas da redação. Anota ai: isso não se aprende na faculdade de Jornalismo – “Como ficar feia em 20 minutos”. Tudo certo, agora só falta o tênis. Melhor pegar os recados do celular.
- Você três novas mensagens. Tecle 1 para ouvir suas mensagens (será??), 2 para armazenar (nem pensar!!), 3 para apagar (opção 3 now!!!!!!!!!!!!!!). Primeira mensagem: “Lorena, já falei para não dormir com essa droga desse celular no silencioso! 24 horas no ar ou muda de profissão!!! Me liga urgente”. Tudo bem, bom dia para você também. Segunda mensagem: “Qual é a possibilidade de você atender esse maldito celular”??? Sim, dormi muito bem, sonhos lindos! Terceira mensagem: “Desisti! Já que não atende mesmo, espero que em algum momento do seu dia resgate essa mensagem. O governador vai anunciar medidas emergenciais para combater a violência no Rio. Coletiva de imprensa no Palácio Guanabara, às 8h. Está na sua mão. Quero a matéria por telefone para abastecer o site. Nem sonhe em não pegar esse recado!!!!!!!!!!”. Agora me fala, ele não poderia ter desistido?? Seria melhor para ambas as partes!
Meu Deus! Já são 8h10. Nesse exato momento eu já deveria estar lá. Tudo bem, não se desespere, pense em coisas boas, lembre-se daquela cena do filme “A Noviça Rebelde” e tudo ficará bem! Corrida contra o tempo, cheguei. O homem está começando a falar agora. Mais de 20 minutos passados, até agora nada de grandioso... blábláblá... nada de interessante que justifique passar a matéria por telefone, então, rumo à redação.
Fechar a matéria, checar os e-mails, atender assessores chatos que acham que vão emplacar o estilista que faz roupas de vegetais – detalhe: na editoria de Cidade – enfim... dia que segue... Quase 8 da noite, ainda estou aqui. Realmente, tudo o que sonhei para mim! Saio da reunião de pauta, vou olhar as minhas ligações. Caramba! Esqueci completamente!!!!!!! Não, eu mereço estar no estágio “a esperança é a última que morre”! Marquei um choppinho às 20h com aquele gatinho universitário que conheci no forró no final de semana. Bicho-Grilo, é verdade... cabelos emaranhados, gíria de surfista, mas tudo bem... afinal de contas, é do sexo oposto e dança com a competência de um sambista da Mangueira! É isso, partiu!
Acho que ele espera um pouquinho, né? Vou passar em casa, arrancar o “uniforme” e partir para o abraço (y otras cositas más...)! Ufa! Estou linda, pronta para o abate! Nunca me produzi tão rápido... estou ficando PHD nisso! Melhor ligar para o gatinho para dar uma satisfação do atraso.
- Alô?
- Rodrigão?
- É isso aí... quem é?
- Oi, é a Lorena... estou te ligando para me desculpar pelo atraso... já estou chegando!
- Pô gata, tu num pegou meu recado não?
- Desculpe! Vi que você ligou, mas tive um dia de cão... vim para casa direto me arrumar, já estou saindo....
- Fala sério, gata... vai rolar aquele choppinho não...
- Não??
- Pô, mandei o papo reto aí pro teu celula.... minha mãe achou as pontas do cigarrinho de erva... daquele... tu é jornalista... ta ligada no que to falando, ta não?
- (silêncio perplexo)
- a casa caiu, mana! O tempo fechou aqui em casa... vou ter que dar uma moral por aqui.... fica pra próxima ae, gata... foi mal ae...
- Tá, tranqüilo... eu tenho umas matérias para fechar mesmo... foi até bom ter cancelado.... tudo bem.
- Pó, ta vendo... tu é a gata! Demoro então... a gente se esbarra aí.... num bate-coxa desses da vida...
- Valeu “mano”. “Tamo aí”!
Profissão: repórter
Estado Civil: quase criando gatos – entenda-se: animais peludos, que não falam, miam!